quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ainda sobre "Adoecer"

"A doença dela [Elizabeth Siddal] é tipicamente a doença romântica: a mulher magra, que desmaia, e que se opõe como ideal à parideira, a mulher capaz de casar e assegurar o funcionamento de uma família. Nunca se percebeu bem que doença é: hoje facilmente se diria que é psicológica. É realmente a doença do mal-estar. A somatização desse mal-estar. A pessoa está num corpo e está mal, dilacerada, por uma sociedade onde não devia ter nascido. Nasceu no sítio errado, e provavelmente nunca teria encontrado um sítio certo para nascer. Está dilacerada por dois grupos de cavalos: a sociedade, por um lado, muito maligna para uma pessoa que faz o percurso que ela faz. E é a relação amorosa, por outro, que os dilacera aos dois. Porque é uma relação que não tem a ver com o tempo, não tem a ver com a convenção, que não tem a ver com os outros, e que tem um tal peso de destino que provoca depois em Gabriel a vontade tal de ser um homem livre daquela sombra que não o abandona. Sem a qual ele não consegue viver. Não é um acto de vontade, é uma pressão, é um reencontro, é qualquer coisa que ultrapassa as opções dos seres vivos. Essas duas coisas chegam bem para adoecer uma pessoa naquelas circunstâncias."

Hélia Correia em entrevista ao Ipsílon


1 comentário:

Graça Martins disse...

"desde sempre os poetas, os apaixonados, os místicos sabem aquilo que Pascal captou há quatro séculos, que o coração tem as suas razões, ignoradas pela própria razão. Pressentiram que o coração é o orgão privilegiado do afecto, a metáfora do amor, da aflição e da nostalgia, bem como do ódio, da violência e da cólera".
Todos temos tendência a somatizar sempre que as circunstâncias internas ou externas ultrapassam os nossos modos psicológicos de resistência habituais.
Elizabeth Siddal não podia fugir ao soma, ao teatro do corpo...viveu como pode e com dificuldade. Os seus pedidos de socorro não foram entendidos. No seu interior vivia uma criança que tinha medo de viver...